É para quem sabe que sair da ilusão, deixando palco e máscaras, pode ser bem doloroso e ainda assim resolve encarar. É para quem sabe que a vida real pode ser frustrante, mas não faz drama, porque afinal amanhã de manhã “a vida segue”, nos chama, e é preciso estar inteiro para a batalha. É para quem se joga sem medo, se atira ao desconhecido, mesmo sabendo que os riscos e possibilidades de arrependimento são muitos. É para quem não faz questão de estar certo e aposta no duvidoso, porque a vida é feita de incertezas e verdades temporárias. É para quem não se acomoda no sofá, esperando uma intervenção divina ou um colo de mãe. É para quem diz o que tem que ser dito, mas sabe silenciar quando as falas se tornam meras repetições. É para quem reconhece a hora de ir embora, quando já não é possível colar o que se quebrou. Mas é também para quem tem a ousadia de ficar e tentar consertar o que ainda tem conserto. É para quem sabe se despedir, sem levar mágoas e sem espernear. É para quem tem dentro de si a insanidade no bom sentido do termo: o lúdico e a loucura que nos faz leves para viver melhor a vida.
1 de setembro de 2011
31 de agosto de 2011
O NÃO-SABER
Nas últimas semanas me tornei ninguém, ser decomposto, dividido e despedaçado. Reconheço uma parte de mim. Mas o fato é que sempre há (e essa é a maior parte do iceberg) o não-inscrito, o impossível de ser simbolizado porque não dispõe de significantes, o não-saber, o que não é, o que não tem sentido, o que falta, o que não serve, não tem graça e não tem nome. Essas são as rachaduras, as falhas, os pontos que me capturam e me paralisam, porque desconheço suas significações. É preciso lidar comigo. Tarde demais? Felizmente ser sujeito se dá em um processo de constante vir-a-ser, uma metamorfose, ou como pensa Lacan: o sujeito nunca é, está sempre sendo, se transformando. Pergunto sabendo que não há respostas... como Clarice Lispector que diz “Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que... não sei onde... para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi...”
11 de junho de 2011
Documentários debatem luta dos Guarani Kaiowá
Lançamento de documentários e debate com os realizadores. À Sombra de um Delírio Verde e Mbaraká – A Palavra que Age. Dias 14 de junho, na FFLCH-USP (18h – sala 8) e 15 de junho, na FD-USP (19h – sala dos estudantes.
Sinopses:
À Sombra de um Delírio Verde (29′ – 2011)
De Cristiano Navarro, An Baccaert e Nicolas Muñoz
Na região sul do Mato Grosso do Sul, fronteira com Paraguai, a etnia indígena com a maior população no Brasil luta silenciosamente por seu território para tentar conter o avanço de poderosos inimigos. Expulsos pelo contínuo processo de colonização, mais de 40 mil Guarani Kaiowá vivem hoje em menos de 1% de seu território original. Sobre suas terras encontram-se milhares de hectares de cana-de-açúcar plantados por multinacionais que, em acordo com governantes, apresentam o etanol para o mundo como o combustível limpo e ecologicamente correto. Sem terra e sem floresta, os Guarani Kaiowá convivem há anos com uma epidemia de desnutrição que atinge suas crianças. Sem alternativas de subsistência, adultos e adolescentes são explorados nos canaviais em exaustivas jornadas de trabalho. Na linha de produção do combustível limpo são constantes as autuações feitas pelo Ministério Público do Trabalho que encontram nas usinas trabalho infantil e escravo. Em meio ao delírio da febre do ouro verde (como é chamada a cana-de-açúcar), as lideranças indígenas que enfrentam o poder que se impõe muitas vezes encontram como destino a morte encomendada por fazendeiros.
Mbaraka, A Palavra que Age (26′ – 2011)
De Spensy Pimentel, Edgar Cunha e Gianni Puzzo
Os cantos dos xamãs Guarani Kaiowá são fórmulas verbais que têm uma ação sobre o mundo. Tradicionalmente, eles curam doenças, afastam pragas da lavoura e bichos peçonhentos, anunciam a chegada dos deuses. Eles não só preveem o futuro, mas o conformam. Hoje, esses indígenas vivem em seu mundo uma crise sem precedentes. Confinados em pequenas porções de terra e com os recursos naturais da região onde residem totalmente degradados, eles se veem diante de um impasse: será que suas palavras conseguirão conformar um mundo novo que reverta a crise cosmoecológica por que passam atualmente? Se a palavra pode ser história, mito e narrativa, entre os Guarani-Kaiowá, ela também é poesia e profecia: um canto de esperança em um futuro melhor.
2 de maio de 2011
SAINDO DA LINHA
Hoje faz tanto sentido voltar a esses rabiscos de 2009... De repente me desalinho e, entre pontos e silêncios, me perco nas reticências. O movimento do ponto origina a linha. Do latim, linea: fio, corda, limite. Linhas conduzem a uma direção, nem sempre numa reta. Às vezes são as curvas que têm mais sentidos. Abrem possibilidades, dão linha, dão corda, estimulam as palavras, as caminhadas e as perguntas. Envolvem relações, alguns embaraços, amarras e muitos nós. Mas sair da linha, contrariando as normas ou as expectativas, transgredir os limites, isto sim é uma experiência pra lá de excitante.
TODAS AS LINHAS (20/03/2009)
Eu sei, a distância apaga tudo
O cheiro da pele
O gosto do beijo
Cada segundo congelado
E as letras do meu nome
no seu corpo desenhado
Mas é mentira se eu disser
que não te quero, que não te vejo
Nas ruas vazias, casas, muros e
esquinas
Nos versos que eu escrevo
no outro lado das linhas
Escorrem palavras
Que eu pinto com os dedos
Sem rumo, sem tempo, sem chão,
nas horas a mais
Com chuva e saliva,
traço o futuro na palma da sua mão
E guardo o desejo
naquela gaveta
Onde deixo meus olhos
E a vida está pronta
E os nós me embaraçam
E te amo maluca
Te mando sinal, ponho anúncio no jornal,
pra você que me enrola e encanta:
Escreve todas as linhas
e coloca o ponto que não é final
27 de abril de 2011
Era
Ouço canção de Ana Carolina, uma porrada pra me fazer pensar, neste dia sem sol, dia cinza. E tudo o mais igualmente cinza dentro de mim...
O destino me pregando uma outra peça eu não
queria
Me cercava toda noite com sua flecha e sua guia
Era o tempo me encostando sua pele traiçoeira
Eram noites tão pesadas com nuvens sorrateiras
Era a vida me cortando a carne com seu guiso
Ecoando pelos séculos os sons de alguns gemidos
Eram o meus antepassados dentro dos bacanais
Era o tempo me emprestando aquilo que eu não
devolveria mais
Era um homem nos meus sonhos me currando sem perdão
Eram duas velhas mortas se arrastando pelo chão
Eu soltava os meus cães e o meu peito a soluçar
Abafava os meus gritos, pois não sabia ladrar
Achei que não era eu que fazia a minha história andar
Punha a culpa no destino e quem estivesse a mão para
culpar
E era assim
Hoje em dia não me importo com o que fiz do meu
passado
Quero amigo, sorte, muita gente boa do meu lado
E não rebato se disserem por aí que eu tô
errado
Porque quem se debate está sozinho ou afogado
Eu que não fico no meio, não começo e nem acabo
Eu sou filho do amor, não de Deus nem do diabo
Na ciranda das canções eu me ponho a revesar
Rodando entre as ondas que me puxam em alto
mar
Hoje sei bem quem sou eu que giro a minha vida
circular
Essa roda eu que invento e faço tudo nela se encaixar
É eu sou assim
queria
Me cercava toda noite com sua flecha e sua guia
Era o tempo me encostando sua pele traiçoeira
Eram noites tão pesadas com nuvens sorrateiras
Era a vida me cortando a carne com seu guiso
Ecoando pelos séculos os sons de alguns gemidos
Eram o meus antepassados dentro dos bacanais
Era o tempo me emprestando aquilo que eu não
devolveria mais
Era um homem nos meus sonhos me currando sem perdão
Eram duas velhas mortas se arrastando pelo chão
Eu soltava os meus cães e o meu peito a soluçar
Abafava os meus gritos, pois não sabia ladrar
Achei que não era eu que fazia a minha história andar
Punha a culpa no destino e quem estivesse a mão para
culpar
E era assim
Hoje em dia não me importo com o que fiz do meu
passado
Quero amigo, sorte, muita gente boa do meu lado
E não rebato se disserem por aí que eu tô
errado
Porque quem se debate está sozinho ou afogado
Eu que não fico no meio, não começo e nem acabo
Eu sou filho do amor, não de Deus nem do diabo
Na ciranda das canções eu me ponho a revesar
Rodando entre as ondas que me puxam em alto
mar
Hoje sei bem quem sou eu que giro a minha vida
circular
Essa roda eu que invento e faço tudo nela se encaixar
É eu sou assim
25 de abril de 2011
TRAVESSIAS
Nos dias em que se comemora a Páscoa, contemplo o devir de novas possibilidades. Recebo a visita de meu pai e reflito sobre os exemplos que dele recebi sobre a persistência e a auto-confiança. Homem forte e corajoso, é capaz de se levantar após uma queda e recomeçar em situações em que outras pessoas desistiriam, pois costuma ver através dos obstáculos suas oportunidades de superação. Com ele aprendi sobre as utopias e seus significados. Entendi o que queria dizer Eduardo Galeano, poeta maravilhoso, quando define que a utopia serve para nos fazer seguir em frente, sobretudo quando ela nos parece cada vez mais distante. Quanto mais caminhamos, mais a utopia se afasta, fugindo de nosso alcance, então mais ainda a desejamos e a perseguimos.
Creio que o sentido mais genuíno da Páscoa é o de libertação. É a travessia entre aquilo que deixamos para trás e o que buscamos conquistar adiante. Como rito de passagem, celebra para os judeus a travessia do Mar Vermelho, mudando um estado de escravidão para a liberdade e o encontro da terra prometida. Para os cristãos, celebra a passagem da morte para a vida, representada na ressurreição de Cristo. Assim também nos traz o sentido de que podemos renascer continuamente, abandonando o que já não nos serve – antigos hábitos, comportamentos, mágoas e outros sentimentos – e fazendo-nos novos. Pois vida é metamorfose, dinâmica de transformações e amadurecimento.
A vida é feita de passagens, de renúncias e perdas que constituem em si mesmas novas possibilidades. Perdemos para ganhar. Do ventre materno ao nascimento, da infância à juventude, da juventude à vida adulta, da vida adulta à terceira idade e desta à morte que, segundo várias crenças, não é o fim, mas o começo de outro sentido de existência. Mudamos continuamente. Nos casamos, tornamo-nos mães e pais, tornamo-nos avós, nos formamos profissionalmente, nos divorciamos, enviuvamos, mudamos para outra cidade, retornamos, enfim as mudanças são parte estrutural da vida humana, atribuindo à sua dinâmica os riscos e recompensas, dores e alegrias, perdas e ganhos da história de cada um.
Pai, o sentido da Páscoa se realiza em nosso encontro, ainda que você não acredite em preceitos religiosos, que seja um cético. O fato é que você sempre acreditou na vida e na capacidade humana de criar.
Ouvimos boa música, conversamos, como antigamente...
Com você eu sinto o céu aberto. Minhas forças se renovam e sinto passar aquela sensação de abandono que trago no peito. De repente, a vida me chama de novo.
Creio que o sentido mais genuíno da Páscoa é o de libertação. É a travessia entre aquilo que deixamos para trás e o que buscamos conquistar adiante. Como rito de passagem, celebra para os judeus a travessia do Mar Vermelho, mudando um estado de escravidão para a liberdade e o encontro da terra prometida. Para os cristãos, celebra a passagem da morte para a vida, representada na ressurreição de Cristo. Assim também nos traz o sentido de que podemos renascer continuamente, abandonando o que já não nos serve – antigos hábitos, comportamentos, mágoas e outros sentimentos – e fazendo-nos novos. Pois vida é metamorfose, dinâmica de transformações e amadurecimento.
A vida é feita de passagens, de renúncias e perdas que constituem em si mesmas novas possibilidades. Perdemos para ganhar. Do ventre materno ao nascimento, da infância à juventude, da juventude à vida adulta, da vida adulta à terceira idade e desta à morte que, segundo várias crenças, não é o fim, mas o começo de outro sentido de existência. Mudamos continuamente. Nos casamos, tornamo-nos mães e pais, tornamo-nos avós, nos formamos profissionalmente, nos divorciamos, enviuvamos, mudamos para outra cidade, retornamos, enfim as mudanças são parte estrutural da vida humana, atribuindo à sua dinâmica os riscos e recompensas, dores e alegrias, perdas e ganhos da história de cada um.
Pai, o sentido da Páscoa se realiza em nosso encontro, ainda que você não acredite em preceitos religiosos, que seja um cético. O fato é que você sempre acreditou na vida e na capacidade humana de criar.
Ouvimos boa música, conversamos, como antigamente...
Com você eu sinto o céu aberto. Minhas forças se renovam e sinto passar aquela sensação de abandono que trago no peito. De repente, a vida me chama de novo.
18 de abril de 2011
OS "LOUCOS" QUE PRODUZIMOS
Começo citando Leonardo Boff, em texto postado em seu blog, sobre o massacre na escola de Realengo (RJ). Diz ele: “A vida cura a vida e o amor supera em nós o ódio que mata”.
Já nos acostumamos com o fato de que a vida urbana tem dessas coisas: violência, intolerância, gente enlouquecida, gente com medo, gente que mata. Diante dessa realidade, nosso teólogo mais sábio e querido nos abençoa com essas palavras... a vida cura a vida... Então a vida está enferma? Carece de cura? Interessante pensar que o remédio para nossos males está na mesma substância que os produziu. Como picada de cobra, que só pode ser tratada com soro feito a partir de seu próprio veneno. Se nossa sociedade adoeceu, é exatamente em seu interior – nas relações humanas que ela produz – que podemos encontrar as respostas e soluções para o cotidiano caótico que nos habituamos a viver.
A questão colocada por Boff é a seguinte: somos nós, sociedade bárbara e desequilibrada, quem produz os “loucos” que nos atormentam. Um rapaz que, aos vinte e poucos anos, resolve vingar as agressões que sofreu quando criança no ambiente escolar, matando alunos da mesma escola em que estudava, e depois dá um tiro na própria cabeça só podia estar “louco” – é o que todos nós concluímos. E nos perguntamos: como se produz esse tipo de loucura? Como evitar que pessoas inocentes paguem por isso? De quem é a responsabilidade de deter os comportamentos destrutivos de indivíduos psicologicamente perturbados?
Patologias que podem levar a tragédias como essa, embora tenham origem em fatores relacionados à história pessoal do indivíduo e nas relações familiares, não podem ser analisadas separadamente do contexto social, até mesmo porque atualmente a sociedade globalizada, os meios de comunicação de massa, as redes virtuais e, sobretudo, a escola passaram a exercer o papel de educadores que antes era restrito aos pais. O psiquismo humano é resultado da interação de vários fatores, entre eles os valores apregoados e difundidos no interior da sociedade em que vivemos – em sua cultura, em suas relações sociais, em seus meios de produção, nas suas produções intelectuais, nos seus jogos políticos e nas mensagens veiculadas por seus meios de comunicação de massa. Ou seja, o sistema político-social e econômico como um todo pode produzir pessoas mentalmente sadias, ou pode ser uma máquina de fazer neuroses e psicopatologias. Além disso, pode ainda tratar como normalidade o que comumente seria tratado como patologia na clínica psiquiátrica. Assim, vários comportamentos que podem ser considerados doentios tornaram-se genéricos ou “normais” nas sociedades contemporâneas, como o isolamento, a frieza, a incapacidade de viver relações afetivas, o medo, a desconfiança permanente, a ansiedade, a depressão, a atitude de “descartabilidade” nas relações humanas (no mundo dominado pelo consumo, troca-se de pessoas, como se trocam de objetos, roupas, etc). Nesse contexto, a sensação de opressão é marcante. É também presente a dor da injustiça e das desigualdades. Estigmas, preconceitos e o desrespeito às individualidades, somados à desagregação dos valores familiares, contribuem para o aumento de comportamentos intolerantes e vários tipos de violência, inclusive nas escolas, como o bullying.
Em meio a tudo isso, nem todos conseguem manter a sanidade mental e emocional. Basta voltar aos estudos de Freud e de outros psicanalistas para compreender que os instintos de morte e agressão fazem parte de nossa constituição psíquica. Temos todos dentro de nós o impulso para a vida e, simultaneamente, tendências agressivas e auto-destrutivas.
Porém, é Freud quem também indica que a civilidade, a educação, a arte, as relações afetivas, a ciência e toda forma de criação e produção humanas nos ajudam a controlar tais instintos e aflorar o princípio de vida: o que há de melhor e mais construtivo em cada um de nós. Felizmente, muitos de nós aprendemos, ao longo da formação de nossa consciência e personalidade, a frear nossas tendências destrutivas e a gerar vida.
Por isso, no momento em que reacendem discussões sobre o combate ao tipo de violência que ocorreu no Rio de Janeiro, somos obrigados a admitir que a questão é bem mais complexa. Restrição à venda de armas, mais segurança policial nas escolas, criação de esquemas de atendimento em saúde mental, treinamento de professores para lidarem com a agressividade em sala de aula, enfim, tudo isso não basta. É preciso reconhecer que ajudamos a inventar esse sistema que nos aprisiona e que somente mudanças em suas bases estruturais e nos modos como se dão suas relações humanas poderão nos indicar os caminhos para a paz.
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