14 de setembro de 2009

Depois do parto, as boas sementes




Rosa Luxemburgo queria produzir filhos e não somente idéias. Não conseguiu. Eu fiz filhos e gosto de gerar idéias. Por isso escrevo. No final, o processo é o mesmo. Sentir crescer em nosso interior, dar forma, alimentar, cuidar... e depois deixar ir.
Parir é aprender sobre partir.
Terminada minha pesquisa, volto pra casa. Mas ao deixar os amigos kaiowá percebo que fiz parte de sua história, como fizeram parte da minha. Construímos juntos, à sombra das mangueiras e ao sabor do terere, uma narrativa sobre suas lembranças e seus anseios.
Ouvi dos antigos como aconteciam os rituais do passado e ouvi dos jovens seus sonhos para o futuro. Compreendi que desejam entender o modo de pensar do não-índio e conquistar seu lugar como cidadãos brasileiros, sendo reconhecidos em sua singularidade étnica.
Ouvi das mulheres como se mantêm guardiãs do saber tradicional de seu povo enquanto os maridos estão fora, trabalhando nas usinas ou fazendas. São elas que rezam, contam os mitos, fazem chover, trazem de volta quem se foi, curam doenças, organizam guaxire, cantam e dançam nas noites de festa e mantêm vivos os fundamentos de sua cultura. Cuidam das roças, saem para vender o excedente, acendem o fogo, alimentam os filhos, trabalham como domésticas nas casas da vila, estudam, tornam-se professoras e agentes de saúde e atuam politicamente pelos direitos de sua comunidade.
Ouvi líderes e rezadores que temem perder, ao longo do caminho, as últimas sementes do conhecimento sagrado deixado pelos antepassados. Acreditam que essas sementes, se caírem sobre terra fértil, poderão germinar, crescer, enraizar e frutificar, sustentando, como grandes árvores, aos jovens de hoje. Se, no entanto, caindo em solo árido, as sementes não vingarem, morre com elas a cultura kaiowá.
Em minha pesquisa, também recebi as “boas sementes”, pois, ao escrever sobre o que vi e ouvi, ao falar sobre identidade e metamorfose, coloquei em jogo minha subjetividade e aprendi sobre minha própria humanidade.

16 de junho de 2009

Fragmentos de um discurso amoroso VII - TE ENGAVETEI


Te engavetei. Do verbo engavetar, meter em gaveta. Na intimidade da palavra: do latim "gabata", tigela, escudela. Em português passou a designar a caixa sem tampa que enfiamos nas mesas. Em sentido metafórico, é um dos sinônimos para prostituta. A frequência com que uma gaveta é aberta e fechada lembraria o ofício da profissional do sexo. Mas nesta gaveta - esta na qual te engavetei, onde te guardo com o passado - não há mais tempo para sexo, para abrir e fechar as pernas, para fechar os olhos e gozar. Esta gaveta eu tranquei. E a chave... joguei fora. Te encerrei no arquivo de ferro, no baú, na geladeira, na mala, no cofre, na mesa do escritório, no guarda-roupa, na caixa-preta. O tempo flui. Não faz sentido investigar os registros do último vôo. Prossigo novamente, nova mente, mãos vazias, sem lágrimas.

15 de junho de 2009

Fragmentos de um discurso amoroso VI - NÃO GOSTO DE SINAL FECHADO


Eu não gosto de sinal fechado. Eu quero chegar antes. Não corro, ando devagar seguindo as pegadas da utopia. Peço licença.
Eu não gosto do teu “senão”, das condições do teu tempo, das tuas previsões.
Eu não gosto dos dias nublados nem das tuas cores. Prefiro as manhãs douradas. Prefiro as noites quentes.
Eu não conheço tua língua, teus planos, tua lógica.
Não trafego no teu curso.
Desprezo tuas mentiras. Brinco com tuas verdades. Não creio nos teus planos.
Não entendo teus sinais, não escuto bem tua voz. O que você disse mesmo? O que?
Ouço ruídos que vêm de dentro.
Ouço aquela música e a minha voz.
Não preciso de lentes de aumento. Meus monstros são grandes. Meus medos me apavoram. Meus fantasmas me assustam no fim do corredor. E por isso não gosto do escuro.
Contemplo meus sonhos à meia luz. Abro as janelas pra lua entrar.
Não tenho nada a esclarecer.
Não vejo tudo de você.
Não sei dos outros.
Pergunto de mim.
Não sei onde é o começo, nunca cheguei ao fim.

Eu não gosto de sinal fechado.

25 de maio de 2009

Algumas pessoas dançam (Para Lara, pelos 20 anos... pelos gestos...pela dança)


Algumas pessoas chegam cedo. Vêm antes para adiantar o encontro.
Chegam antes para iluminar a manhã cinzenta e colorir o dia triste.
Vêm antes, porque não podem gastar à toa a vida que lhes foi dada de presente. Vêm antes que os anjos mudem os planos e desistam de deixá-las partir. Aceitam a vertigem da queda, o medo do novo, os riscos do desejo.
Aceitam as dores do parto. Nascer dói. Parir dói. Partir dói.
Algumas pessoas encarnam os gestos, e por eles são usadas, sem dono e sem pressa. São como folhas levadas pelo vento. Vez em quando caem no seu quintal, ou tocam seu rosto, ou enrolam-se no seu cabelo. Surpreendem, alteram a perspectiva, mudam os planos.
Algumas pessoas dançam. São leves e insustentáveis e por isso dançam. E dançando, imortalizam os gestos. Porque conhecem o segredo: não somos nós que materializamos os gestos. São eles que nos possuem e a tudo fazem renascer em cada novo ato humano. As palavras que já não ouvimos e o cheiro que acaba, a música que cessa e as lembranças que se perdem, tudo... tudo renasce nos gestos.
Algumas pessoas brincam com o tempo. Atravessam os anos. Superam as horas. Transcendem as marcas, as rugas, as paisagens, as bagagens, as passagens, os erros, as mágoas, as lágrimas, os lamentos, as vaidades, os vazios e tudo o mais que será esquecido.
Algumas pessoas são eternas... porque chegam sem avisar, porque insistem em ficar, porque não se contentam em caminhar. Elas dançam.

8 de maio de 2009

Tekoha




29 de abril de 2009

Fragmentos de um discurso amoroso V – seu aniversário


Antes de te encontrar, todos os dias te esperei.
Esperei pelo beijo em frente à estação. Esperei pelo sorriso de menino. Esperei que me perguntasse se havia lugar em meu castelo. Esperei que entrasse, que ficasse. Esperei que me desejasse, porque “de desejo somos” diz Galeano. E que me mostrasse uma perspectiva, uma avenida, uma ave, como no poema de Maiakovski. Esperei pela utopia. E pela ternura, e pela vontade forte de mudar o mundo.
Eu já sabia que juntos ouviríamos o mar, caminharíamos no deserto, abraçaríamos árvores, correríamos em campos de girassóis, contemplaríamos o por do sol, contaríamos estrelas, passearíamos de mãos dadas entre os edifícios das cidades de pedra, amaríamos pessoas, faríamos amor e filhos, plantaríamos flores, colheríamos conchas, riríamos das imperfeições e nos divertiríamos fazendo tudo de novo... mais novo, mais poesia, mais imperfeito, mais longe...
E de olhos fechados o criei em meu mundo. E coloquei nossos retratos na parede. E guardei suas memórias e histórias. E o vi dormindo na rede, como índio, sonhando comigo. E fiz minhas suas palavras, e ouvi o som do sim, música bonita, infinita...
Então hoje, quando acordei, olhei para o relógio e ele parecia se mover ao contrário, trocando de tempo e de idéias, como se me dissesse que o absurdo da existência é chegar ao fim. E que este presente não acaba nunca.

26 de abril de 2009

Chuva



Tarde de sábado, Campo Grande. Fico no carro enquanto meus amigos atravessam a rua pra comprar incenso. É preciso perfumar a casa. Chove muito. Essa água toda caindo do céu, lavando os vidros do carro, um choro da natureza.

É triste. É uma tarde triste. E não ligo que seja triste. Tenho vontade de me molhar, de sair na chuva, parar de me preocupar e aceitar, me entregar no que tiver que ser, sem grandes sofrimentos.
Dá vontade de nem ligar pra imperfeição. De não me preocupar mais com as “lágrimas de diamante”, e deixar o mundo chorar à vontade, e deixar meu coração seguir livre o seu vazio, e me atirar nesse oco pra ver onde vai dar, e fazer isso não por coragem, mas por medo, pra finalmente desmistificar o medo.
Acho que é uma atitude corajosa enfrentar nossos medos de frente, desarmados. Isso eu tenho que fazer agora, não posso adiar, porque se tiver medo de me machucar, se paralisar agora, vou me acostumar ao que não gosto. E isso não é justo, porque a vida é pra ser vivida com gosto, com prazer e desejo de ter ainda mais.

Meus amigos entram no carro, vamos ao supermercado. Enquanto fazemos as compras, penso que ter amigos é uma parte maravilhosa da vida. Que bom saber que no caminho sempre se cruza gente boa. O que seria de mim se não pudesse desfrutar desses simples momentos cotidianos? Ou o que seria se não fizesse reflexões entre as prateleiras de um supermercado?
A vida deve ser assim, uma história bacana. Eu quero escrever uma história bacana. Porque, como me lembra sempre uma grande amiga, “não sou nenhuma vagabunda pra viver de qualquer jeito, viu meu bem!” E, no final da história, quero encontrar a Ana, quero voltar pra casa e deixar a porta aberta pra que ela entre e me conte mais sobre a vida.